Amarelou…

A transformação de antigas edificações em usos distintos aos do que foram originalmente destinadas é uma temática presente em projetos de arquitetura do mundo inteiro.
São antigas alfândegas que viraram centros comerciais, prédios administrativos que se transformaram em shoppings, zonas degradadas que se tornaram bairros modernos ou galpões portuários que ressurgiram como centros culturais.
Esses projetos trabalham de maneira consciente e inteligente as questões da preservação de elementos históricos e as adequações modernas que os novos usos exigem, de modo a viabilizar o empreendimento. Exemplos não faltam: o Puerto Madero ou o Pátio Bullrich, em Buenos Aires; o Shopping Light, de Carlos Faggin, em São Paulo; o Paço Alfândega de Recife, da Pontual Arquitetos; o Museu Rodin Bahia, da Brasil Arquitetura ou mais recentemente o Museu do Pão, em Ilópolis, no Rio Grande do Sul, do mesmo escritório. Poderíamos citar em Florianópolis diversos exemplos, como o Loft Juarez Machado, que anexou ao moderníssimo edifício de peles de vidro uma antiga casa açoriana; ou também em Joinville: a Nova Casa Sofia e o próprio Shopping Cidade das Flores, ambos projetos da M² Arquitetura.

Infelizmente, Joinville acaba de perder mais uma ótima oportunidade de ser referência de um belo exemplar arquitetônico: a chamada Casa Amarela. Construída em 1908 e demolida exatos 100 anos depois, a casa foi incluída, nos anos oitenta, no Projeto Inventário das Correntes Migratórias, o qual promoveu o cadastramento de edificações de importância das etnias que compõem o panorama cultural catarinense. O inventário foi iniciado em seis municípios do Estado, e tornou-se um instrumento importante para o reconhecimento das características do patrimônio de Santa Catarina.

Durante as semanas em que se discutiu o destino da casa percebeu-se a maneira equivocada como muitos entendem questões como o valor de um patrimônio histórico, de um bem cultural, o significado de progresso, de modernidade e da própria arquitetura, como se a manutenção da Casa Amarela fosse impedimento para a construção do supermercado ou mesmo significasse um pensamento retrógrado.

Desenvolvimento, modernidade e progresso significam para muitos construir elevados, vias expressas, rótulas, binários e edifícios espelhados. Significam abrir mão do passado, da história e negar suas origens. Não percebem que um bem histórico, como a Casa Amarela, tem para a cidade o mesmo valor e significado que um objeto pessoal tem para uma pessoa, como uma foto familiar ou outro artefato qualquer de importância sentimental herdado de um ente querido.

Os dois prédios poderiam nascer juntos, coexistir em um único significado. De maneira inteligente e moderna veríamos o progresso traduzido no diálogo entre a tradição e a invenção, na relação de dois edifícios de séculos diferentes.

A arquitetura e seu poder transformador de nada adianta se quando o que falta de verdade é a boa e velha educação, algo recorrente nos países de primeiro mundo, onde desde cedo as novas gerações são ensinadas a preservar seu passado para construir o futuro.

A seção “Post Verde” deste blog pretende informar e reunir algumas ações, publicadas aqui, que levarão à construção de um mundo melhor e mais civilizado, com desenvolvimento e sem comprometer o futuro.